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Minhas Visitas a Cuba (Ziel Machado)

A propósito da visita da blogueira cubana Yoani Sanchez e toda a reação e discussão na mídia, li e achei apropriado registrar aqui este texto, reproduzido com permissão do autor.

Minhas visitas a Cuba: não tenho do que me orgulhar, prefiro aprender!

Por Ziel Machado  em 21/02/2013

Minha amiga Maysa Monte me perguntou sobre a questão da “satanização pública”, expressão usada pela nossa visitante cubana Yoni Sanchéz. Aproveito a oportunidade para expressar minha opinião, dando uma “no cravo e outra na ferradura”, como diria minha saudosa mãe!

Sabe aquela história do copo com água pela metade? Uns consideram que está meio cheio outros o consideram como meio vazio. Dependendo do olhar que se tem, uma opinião contrária (ou qualquer opinião) pode ser vista por um lado como defesa de um ideal revolucionário e por outro lado como uma satanização pública. Isso eu vi em Cuba e vi nos 60 países que pude visitar em todos os continentes. Isso faz parte do embate ideológico de qualquer nação.

Como disse antes, aqui no Brasil uma parte da população está descobrindo que “não nasceram da cegonha” e aí ficam com estas crises. Acho que podem e devem protestar mas eu preferiria que este protesto fosse em torno de debates profundos , com perguntas bem formuladas e espaço seguro para ouvir as respostas.

Não vi em Cuba, crianças nas ruas abandonadas, não vi em Cuba pessoas em filas sem atenção médica, não vi em Cuba pedintes pelas ruas, não vi em Cuba relatos de violência urbana. Vi em Cuba uma nação lutando com seu modelo energético, sofrendo uma tremenda falta de abastecimento de coisas básicas, o que ficou ainda pior depois da queda da União Soviética. Vi muita gente defendendo a Revolução e muitos desejosos de sair do país. Estive alí 3 vezes, por períodos longos , não fiquei hospedado no Malecón. Andei horas de guaga, atravessei o país de norte a sul. Fiquei surpreso de forma positiva em como a vida pode ser vivida de forma mais simples e constrangido pela questão de como se trata a questão da liberdade de ir e vir e de opinar. Não gostaria de viver ali na atual conjuntura e não gosto de viver aqui em nossa atual conjuntura, eles e nós temos motivos de sobra para nos envergonharmos.

Lá a liberdade humana vale pouco, está debaixo de um crivo ideológico, aqui a vida humana não vale nada!

Aqui você é livre para ir e vir e no meio do percurso ser morto por uma bala perdida ou por um menor abandonado, que vive na rua devido a violência de um lar miserável. Lar dominado por um padrasto violento que explora a mulher que tem seu primeiro marido preso nessas antessalas do inferno que são as prisões. Este manda dinheiro para mulher devido a droga que ele vende na favela para os bacanas das zonas ricas da cidade consumirem em suas festas chiques. Festinhas fotografadas por essa imprensa rica que tem seus lacaios no poder, poder este tomado por esta classe política que envergonha esse país, decidindo e criando leis que agravam a crise de um povo cada vez mais informado, miserável e submetido a condições de abandono. Leis criadas por essa gente de gravata que imposta a voz no discurso e debocha do pobre em suas festas regadas a drinks, sabe lá do que!!!

Esta mesma classe política que impede que os trabalhadores e empresários sérios possam produzir a riqueza de que este país necessita para assegurar o pão, o vinho e a festa na casa de cada família. Que desorganizam a vida econômica e social de tal forma criando condições que impedem que nossas crianças possam ir em paz para suas escolas levando o seu lanchinho gostoso, preparado com carinho por aqueles que as cuidam com amor. Como tenho saudade do tempo que ia para escola com um bando de crianças da mesma rua, quando podíamos atravessar os cruzamentos da cidade pois ainda havia respeito a vida humana. Ninguém nos molestava! Não tínhamos video game mas tínhamos nossa bola de meia, bola de gude, pneu velho para brincar. No dia seguinte, com nossos uniformes simples, íamos de novo, aquela “nuvem ” de crianças para a festa do saber, para desenhar em nossos cadernos de caligrafia, Olavo viu a uva, Moema viu Olavo.

Não me orgulho de nossa “liberdade” e lutaria com todas as minhas forças caso fosse privado dela. Não me orgulho deste país que vivo e não suporto o uso ideológico que justifica a supressão de liberdade, em Cuba ou em qualquer lugar. Termino com a única oração possível, quem entende entenderá; MARANATA!! Agora é preparar o lombo para a pancada! kkk tudo bem, vou tomar umas classes com a Yoani kkkk!

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3 comentários em “Minhas Visitas a Cuba (Ziel Machado)

  1. Reside neste artigo a diferença primordial: a liberdade de expressar a vergonha pelo estado a que chegamos! Mas temos no Brasil uma base Constitucional e de Estado de Direito que nos permite lutar com armas democráticas e provocar mudanças! Sou a favor do direito de discordar – com elegância e educação. Yoani merece seu espaço para defender suas idéias… não há preço que pague o cerceamento da liberdade de ir e vir, de se expressar, de concordar e discordar, de crer nisso ou naquilo… não defendo ou ataco Yoani. Defendo seu direito de apresentar sua visão, como cubana, do que acontece em seu país. Da mesma forma que podemos listar nossos desgostos com a fraude, a corrupção, os desmandos e descontroles, as injustiças sociais, a violência e o cinismo político no Brasil… Temos comido o pão amassado e duro de nossas mazelas… mas ainda prefiro isso, com democracia. Ainda que ela esteja longe do estágio que desejamos. Ainda que nosso cenário político, social e econômico esteja muito aquém de suas potencialidades! Me junto ao seu MARANATA! Cordialmente,

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  2. Padre Juán sobre Cuba

    Acabo de chegar de viagem do México. Muita informação na cabeça. Mas, conversei com um padre cubano pessoalmente, agora, e tive o prazer de lhe perguntar pessoalmente como funciona a saúde cubana de bate-pronto sem ele me conhecer, se lhe dar expectativa nenhuma: a resposta dele: “un desastre!”… Eu lhe perguntei, mas padre eu tenho amigos “cristãos” que viajam a Cuba e contam maravilhas do país, como isto é possível? A sua resposta: Te colocam numa ‘van’ de excursão e te levam a três, quatro pontos específicos e mostram hospitais escolhidos, e, outra coisa, comunista é treinado para mentir desde pequenino’… mentem sem ficar vemelhos… Perguntei sobre as questões históricas, se em Cuba se ensina sobre os genocícios, sobre a história soviética: a respota foi: “Nó, nó se ensina”… ” y quando yo los hablo no lo creyen”… “yá están formatados pelo estado”…. Percebem? O que ocorre com uma educação estatal de partido único? Ele me disse que só existe um jornal que emite opiniões políticas, o acesso à web é restrito e que os livros de história são restritos… e que toda uma geração de cubanos foi ‘formatada’ pela ‘interpretação de mundo’ dos Castro… lá não haverá ‘dialética’ do contraditório nesta geração… assim seria no Brasil…. segundo muitos movimentos universitários, inclusive muitos grupos cristãos ‘cabeças’…
    Segundo o Padre Juán, a Venezuela está seguindo o mesmo caminho…
    Ou seja, segundo conversamos à mesa, a experiência da formatação da educação cubana só mostra que não adianta SIMPLESMENTE reverter dinheiro para a educação SE ESTA EDUCAÇÃO FOR CONTROLADA POR UMA IDEOLOGIA — seja ela de ‘direita ou de esquerda’–, onde não houver possibilidade de visões contraditórias só dinheiro não trará EMANCIPAÇÃO DAS MENTES, NEM CRESCIMENTO INTELECTUAL, nem Progresso, nem vida num sentido pleno…
    PS.: Para quem quiser saber mais, tenho os dados completos do padre aqui…
    .x.x.x.x.x.x.x

    Situação da saúde de Cuba e médicos cubanos… segundo o Padre Juán… — graças à igreja Católica… porque se dependermos dos Evangélicos Progressistas Chavistas Brasileiros, nunca saberemos…
    .x.x.x.x.x.x.

    Assino embaixo e sou testemunha do que escrevo. Podem confiar. Ouvi em primeira mão…
    (Marcelo) Mas a propaganda no Brasil, inclusive nas universidades é que o sistema de saúde é exemplar?
    (Padre Juán) Mandem-nos à minha paróquia então e não só nos 3 ou 4 pontinhos em que as vãs e os guias oficiais os levam e as excursões oficiais mostram! Em Cuba a saúda já foi boa, há uns 20 anos atrás, hoje você precisa acompanhar o paciente, e pagar ‘propina’ para o atendente ao entregar o doente. ‘Además’, precisas conhecer um pouco de medicina porque te aplicam água na veia, às vezes, desviam o medicamento, vendem e fazem dinheiro no mercado paralelo, para fazer um dinheiro extra, porque ganham pouco na saúde… é assim.
    (Marcelo) E os médicos cubanos? O senhor sabe que eles ganham 10.000 reais no Brasil e só recebem 2.000 para eles mesmos? Isto está errado…
    (Padre Juán) Na Venezuela recebem 500… o Brasil é o emprego dos sonhos deles… todos querem ir para lá… receber 2.000 reales é o sonho de todos os médicos cubanos…. não vão rejeitar isto nunca mesmo sabendo que o governo fica com a maior parte…
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    03.09.2015
    Este texto é um resumo de uma conversa à mesa com o padre Juán na cidado México num jantar no dia 01.09.2015. Os dados do Padre estão comigo por questão de privacidade. (Marcelo)

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