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Liberalismo vs. Socialismo (Sergio Luiz Bragatto)

No intervalo do cafezinho no escritório, um funcionário comenta que ‘Eu e meu irmão conhecemos todas as ruas de São Paulo pelo nome’. Um outro retruca ‘Fantástico isso! Então diga, onde fica a Rua Madre Theodora?’ A resposta vem imediata: ‘Esta meu irmão é quem sabe’!
Esta velha piada é exemplar para uma questão que interessa muito à Filosofia. Trata-se do uso da conjunção “e” no vernáculo. Em várias línguas o mesmo problema ocorre: a interpretação do “e” depende do contexto. O mesmo acontece com “ou” e inúmeras outras. Se palavras corriqueiras, que usamos no dia a dia, podem ter significados diferentes, é fácil perceber porque nas ciências é necessário adotar outras linguagens, como é o caso na lógica, na matemática. Mas os contextos de emprego das palavras de uso diário normalmente permitem que a intenção no uso seja corretamente apreendida, com exceção de alguns casos, como na piada acima.

Já o caso das palavras de significado complexo não é tão fácil, e resta muita confusão, não raro aproveitada consciente ou inconscientemente pelos que se pautam por profecias para engrupir uns e outros.

É o que se dá justo com a palavra Ideologia, um termo que na origem tem um sentido preciso com Hegel e Marx, mas que hoje é muitas vezes mal empregado – por exemplo, como sinônimo de ideário, o que é fonte de equívocos. Quantas vezes ouvimos um socialista papaguear algo do tipo ‘ … você tem de ter uma ideologia, sem ideologia você não tem nada.’ Ou então ‘ cooomo, você não é nem de esquerda nem de direita??? ‘. A totalidade dos socialistas que encontrei não soube dizer o que é ideologia. Mas papagueia pela cartilha.

A calhar vem a nosso auxílio neste momento o professor de filosofia e ética da Unicamp Roberto Romano [vindo “da esquerda”, e ele como filósofo tem obrigação de saber], por ocasião dos ataques do PCC em São Paulo, [lembram? O PCC então brandia nas ruas justificativas socialistas para queimar ônibus, passadas diretamente a eles por ativistas políticos da extrema esquerda],numa entrevista ao estadão ‘ [descreveu] ideologia como discursos e representações que apresentam uma realidade complexa com enunciados simplistas, investindo contra os fatos em benefício próprio. E acrescentou: “Já disseram que os criminosos de Shakespeare seriam muito piores se tivessem uma ideologia. E isso é uma verdade.” (oesp 13-08-2006)’

Mas o caso de ideologia é simples, se comparado com liberalismo, que tem muitas diferentes acepções.

Os EUA são um país liberal. No momento em que dizem isso, até os americanos sabem que não se referem aos Democrats, mas ao liberal que consta na expressão democracia representativa liberal. No entanto,  complicando muito a situação, nos EUA os adeptos do partido Democratic se dizem professar o liberalismo, sem mais, quando deveriam dizer liberalismo político, e os jornalistas americanos adotam esse hábito. [Isto não ocorre nos demais países de língua inglesa.] E os EUA são muito influentes, a confusão diária dos jornalistas brasileiros em cima disso é uma contínua piada, principalmente quando mal traduzem textos publicados pela imprensa americana.

Para evitar a ambiguidade, Popper adotou a expressão Sociedade Aberta, cujas ideias desenvolveu em profundidade na sua obra mais universal e acessível, “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. As ideias é que importam, e não as definições [pelo caminho linguístico], como ele sempre fez questão de pontuar. [para não ter o mesmo triste fim na mão dos nacional-socialistas no entre-guerra que tiveram vários parentes próximos seus, migrou para a Nova Zelandia, e teve de aprender um inglês impecável para sobreviver; ele conta como isso o ajudou a se libertar das armadilhas linguísticas, por ele muito estudadas – escreveu A Sociedade Aberta direto em um inglês muito elogiado por acadêmicos da língua; de fato, a obra flui com uma clareza notável]

Sem dúvida a melhor fonte para entender o liberalismo da democracia representativa liberal a meu ver é esta obra de Popper. Este liberal refere-se à Liberdade do indivíduo que vive em sociedade, seu conceito, suas razões, suas limitações, suas implicações. Popper seca o assunto, não há posicionamento relevante dos pensadores a respeito que ele não apresente de maneira muito clara, da Grécia Antiga até hoje. Abaixo, um pequeno excerto, em que ele se refere a protecionismo e liberalismo:

. . . .The view of the state which I have sketched here may be called ‘protectionism’. The term ‘protectionism’ has often been used to describe tendencies which are opposed to freedom. Thus the economist means by protectionism the policy of protecting certain industrial interests against competition; and the moralist means by it the demand that officers of the state shall establish a moral tutelage over the population. Although the political theory which I call protectionism is not connected with any of these tendencies, and although it is fundamentally a liberal theory, I think that the name may be used to indicate that, though liberal, it has nothing to do with the policy of strict non-intervention (often, but not quite correctly, called ‘laissez faire’). Liberalism and state-interference are not opposed to each other. On the contrary, any kind of freedom is clearly impossible unless it is guaranteed by the state 42. A certain amount of state control in education, for instance, is necessary, if the young are to be protected from a neglect which would make them unable to defend their freedom, and the state should see that all educational facilities are available to everybody. But too much state control in educational matters is a fatal danger to freedom, since it must lead to indoctrination. As already indicated, the important and difficult question of the limitations of freedom cannot be solved by a cut and dried formula. And the fact that there will always be borderline cases must be welcomed, for without the stimulus of political problems and political struggles of this kind, the citizens’ readiness to fight for their freedom would soon disappear, and with it, their freedom. (Viewed in this light, the alleged clash between freedom and security, that is, a security guaranteed by the state, turns out to be a chimera. For there is no freedom if it is not secured by the state; and conversely, only a state which is controlled by free citizens can offer them any reasonable security at all.). . . .

liberalismo coloca o indivíduo acima da sociedade, considera deveres do Estado defender os direitos do indivíduo, e combater os privilégios de pessoas e de grupos, particularmente os do poder econômico e do governo da vez. Reconhece o mérito como fator importante do desenvolvimento, e considera o Estado como detentor do monopólio da violência.

socialismo coloca a sociedade acima do indivíduo através do seu coletivismo, e coloca a profecia do Marx, que teria descoberto o enigma da História [nas suas próprias palavras], como um dever a cumprir. O Estado, no fim do processo percorrido na sua metodologia, é desnecessário, e uma classe única deve persistir. [até a falência do socialismo na queda do muro, a nomenklatura só fez aumentar em tamanho e corrupção]

A partir da implantação da democracia representativa liberal, que não cessa de evoluir, o grande sucesso levou inúmeros países a adotá-la. Mas este sucesso também exacerbou o rancor dos socialistas, o que tem causado grande sofrimento aos povos onde o socialismo ainda rege. E mesmo onde o país não é socialista no papel, mas o governo de plantão reze pelo socialismo socialista.

Não há gurus, não há almoço grátis.

Sérgio Luiz Bragatto, Engenheiro de Eletrônica formado em 1966 no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com mestrado em Sistemas de Controle e especialização em Eletrônica de Potência.

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